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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Estácio de Sá, o monumento ao fundador da Cidade do Rio de Janeiro.

A história desse monumento se inicia nos festejos do 4º Centenário da Cidade do Rio de Janeiro, em 1965, quando os compositores Haroldo Barbosa e Raul Mascarenhas fizeram um samba que comentava inexistência de um monumento ao fundador da cidade: “Cadê a estátua de Estácio de Sá?”

Esse fato gerou muita polêmica na ocasião, motivando a realização de um levantamento para descobrir que homenagens haviam sido feitas ao fundador da cidade. Passados os anos, a ideia ressurgiu no Instituto de Patrimônio Histórico Nacional, encampada pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro.

A primeira intenção previa a construção de uma estátua de Estácio de Sá. Contudo, apesar das pesquisas feitas, não foi encontrada a figura do fundador. O Governo do Estado criou, então, uma comissão, à qual foram apresentados diversos projetos, sendo escolhido o de Lúcio Costa. Finalmente, em 1970, o monumento a Estácio de Sá teve a pedra fundamental lançada pelo primeiro ministro de Portugal, professor Marques Caetano, prevendo sua inauguração em 20 de janeiro de 1972.

O local estava definido, nas proximidades de onde Estácio de Sá lutara contra os índios tamoios e recebera o ferimento que causaria sua morte, ou então o lugar onde ficava o morro do Castelo, hoje uma esplanada.

O projeto de Lúcio Costa previa um monumento dividido em dois ambientes: um ao ar livre, elevado em relação ao nível do parque, ocupando uma área de 450 m², e outro abaixo, formando um grande salão.

A área externa, talvez intencionalmente, recria o belvedere do Passeio Público (primeiro espaço público da cidade), cujo terraço permite a vista do mar, tendo próxima uma pirâmide triangular de pedra de 17m de altura que pode ser vista da Baía de Guanabara, um marco da paisagem da cidade.

                                              
O monumento valoriza o principal símbolo de Estácio de Sá, sua lápide. A partir dela, criou-se uma ambiência de exposição. Instalou-se uma cópia da lápide que está na Igreja dos Capuchinhos, no bairro da Tijuca. Ela está no piso inferior do monumento, no salão, mas é visível do terraço. Para tanto, criou-se uma estrutura de vidro trapezoidal na laje. Esse vidro dá um efeito de claraboia no salão, permitindo que os raios solares entrem e incidam sobre a cripta.
  
Lapide de Estácio de Sá, na Igreja de São Sebastião.
                                                     
  Vista do piso de vidro no terraço

No salão, a cripta está sobre uma caixa de areia, que representa a areia onde o fundador da cidade desembarcou, ao lado do marco em pedra, réplica do existente na Urca. O piso e as paredes são de pedras extraídas das ruas do Rio de Janeiro, emparelhadas uma a uma para adequação ao projeto.

                                                
Outra preciosidade do monumento é sua porta de bronze, que dá acesso ao salão. Ela foi realizada por Honório Peçanha. De um lado dela está o primeiro mapa quinhentista, em relevo; do outro, o brasão do fundador.
                             

Finalmente, em 29 de marco de 1973, às 10h, foi inaugurado o monumento, com a presença do governador do Estado, Sr. Chagas Freitas, e do embaixador de Portugal no Brasil, Sr. José Henrique Saraiva.

Desde sua inauguração até 2010, o Salão do Monumento ficou fechado, o que favoreceu a sua invasão por desocupados, danificando sua porta e instalações.

      Foto de 1998 - Luis Verdugo

Em 11 de novembro de 2010, após permanecer fechado para obras durante três anos, foi inaugurado o centro de visitantes do monumento, idealizado por Lúcio Costa há 40 anos.

O local passou a ser mais uma alternativa de passeio, que permite a visão da Baia da Guanabara com o Morro do Pão de Açúcar ao fundo. Foram instalados computadores que poderão ser usados para pesquisa, além de totens multimídia com conteúdo audiovisual que conta a história do Rio de Janeiro.

O local, que também conta com um espaço para exposições, encenações e apresentações musicais, possui um auditório com capacidade para 37 pessoas, com projetor, telão e televisores LCD de alta definição, podendo ser utilizado para sessões de cinema, palestras, workshops, entre outras atividades.

Finalizo essa história descrevendo que a palavra pirâmide não provém da língua egípcia. Formou-se a partir do grego "pyra" (que quer dizer fogo, luz, símbolo) e "midos" (que significa medidas). A piramide foi então inspiradora no Rio de Janeiro de dois mestres, o Mestre Valentim, no início do século XIX e Lucio Costa no século XX.



Lúcio Costa foi o pioneiro da arquitetura modernista no Brasil. Ficou conhecido mundialmente pelo projeto do Plano Piloto de Brasília. Estudou na Royal Grammar School, em Newcastle, no Reino Unido, e no Collège National, em Montreux, Suíça. Retornou ao Brasil em 1917 e, mais tarde, passou a frequentar o curso de arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes. Apesar de praticar arquitetura neoclássica durante seus primeiros anos, rompeu com essa formação historicista e passou a receber influências da obra do arquiteto franco-suíço Le Corbusier.

O arquiteto iniciou parceria com o colega ucraniano Gregori Warchavchik, que construiu a primeira residência considerada moderna no Brasil. Em 1930, foi nomeado para dirigir a Escola Nacional de Belas Artes, com a missão de renovar o ensino das artes plásticas e implantar um curso de arquitetura moderna.

Em 1939, foi co-autor do pavilhão brasileiro para a Feira Universal de Nova York, juntamente com Oscar Niemeyer e Paul Lester Wiener. Em 1957, ao ser lançado o concurso para a criação da nova capital do país, Costa enviou ideia para um anteprojeto, contrariando algumas normas do concurso. Apesar disso, venceu por quase unanimidade (apenas um jurado não votou nele), sofrendo diversas acusações dos concorrentes. Desenvolveu o Plano Piloto de Brasília e, como Niemeyer, passou a ser conhecido em todo o mundo como autor de grande parte dos prédios públicos da capital federal brasileira.

   Lucio Costa 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Noel Rosa em Vila Isabel

Noel de Medeiros Rosa nasceu no Rio de Janeiro em 11 de dezembro de 1910. Estamos, portanto, às vésperas de comemorar o centenário de seu nascimento. A importância de Noel Rosa para o bairro de Vila Isabel, onde ele morava, se deve por ser ele um dos maiores e mais importantes artistas da música brasileira em todos os tempos. Noel teve contribuição fundamental na legitimação do samba de morro e no asfalto, ou seja, entre a classe média e o rádio, principal meio de comunicação em sua época, fato de grande importância não apenas para o samba, mas para a história da música popular brasileira.

Logo após a morte de Noel, em 4 de maio de 1937, seus amigos Antônio Nássara (compositor e cartunista) e Orestes Barbosa (cronista e poeta) se empreitaram em imortalizar sua figura no bairro de Vila Isabel. A ideia recebeu fortes adesões do meio musical, como a do compositor Lamartine Babo. O escultor Alfredo Herculano, amigo de Nássara, se propôs a criar a obra.

Então, em 18 de agosto de 1938, foi inaugurada na Praça Tobias Barreto, em Vila Isabel, uma pequena coluna de pedra que ressaltava o perfil característico de Noel Rosa e o violão, instrumento que tanto o acompanhou em suas composições.

Em 1946, a escultura foi transferida para a Praça Barão de Drumond, no final do Boulevard Vinte e Oito de Setembro, eixo principal do bairro.

 

Em 1987, no dia 4 de maio, quando se completaram 50 anos da morte de Noel, a cidade do Rio de Janeiro prestou outra homenagem ao compositor. Foi realizado um pequeno busto, simples e expressivo, feito pelo escultor Mandarino, para marcar a presença de Noel no canteiro central do boulevard, bem próximo aos bares que o homenageado costumava frequentar.

                            
 

A terceira vez em que a cidade prestou reverência a Noel foi em 1996. Para a estátua do compositor, foi criado um largo realizado pelo artista plástico Joas dos Passos no início do boulevard, formando um conjunto escultórico todo de bronze, em cujo centro está a escultura, rodeada de colunas de granito. Aqui a figura é de corpo inteiro – Noel aparece sentado à mesa de um bar, servido por um garçom. Ao lado dele está uma cadeira vazia, para que qualquer pessoa lhe faça companhia.

Essa última homenagem do Rio de Janeiro a Noel Rosa representou a revitalização do boulevard, após uma intervenção urbana no bairro.

 




domingo, 5 de dezembro de 2010

Nossa Senhora da Imaculada Conceição – Escultura que virou uma lenda urbana.

Quando se fala que o Rio de Janeiro é um museu a céu aberto, devemos considerar isso como um fato. A escultura de Nossa Senhora da Conceição que está no Largo do Machado, por exemplo, é uma das mais importantes relíquias da cidade, tombada pelo DGPC pelo Decreto 25693 de 23/08/2005.                                        
                                          
                                    
     
A estátua foi inaugurada em 8 de dezembro de 1954, dia em que a Igreja Católica comemorou o centenário da promulgação do dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Ou seja: o dogma de que a Mãe de Deus concebeu sem a mancha do pecado original, promulgado pelo Papa Pio IX em 1854. Quatro anos após a proclamação do dogma, Maria Santíssima apareceu a Bernadette Soubirous, na cidade francesa de Lourdes, dizendo: “Eu sou a Imaculada Conceição”. Assim, a imagem é representada por Nossa Senhora sobre o globo terrestre, com os pés a esmagar uma cobra, símbolo do pecado original.

                                 
                         

Coube a Dom Jaime Câmara doar a peça ao Rio de Janeiro. A história dessa doação é interessante e está registrada em seu diário. Ela começa no dia 12 de novembro de 1954, quando D. Jaime foi ao Largo do Machado para um segundo encontro com o secretário da Viação e Obras da Prefeitura (Dr. Jorge), o diretor de Parques e Jardins e o professor Edgar Fonseca, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), para estudar a construção do monumento a Nossa Senhora, aprovada pelo cardeal.

D. Jaime resolvera aproveitar a estátua da Virgem que estava no Palácio São Joaquim. Ela era criação do escultor genovês Antonio Canova, adquirida por Dom Joaquim Arcoverde Cavalcanti em uma de suas viagens à Europa, por conta da construção do palácio, que abrigava o Ministério do Exterior da Primeira República. A intenção era comemorar com solenidade o centenário da promulgação do dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria. Para isso, não haveria marco melhor que um monumento na praça em frente a uma igreja tão conhecida, a matriz das Laranjeiras.

Em dezembro de 2015 o pesquisador Ivo Korytowski enviou a seguinte informação: " Ampliei a foto no meu computador e vi que se trata de "G NAVONE GENOVA 1907". Ou seja, a estátua não é realmente do Canova, infelizmente, e sim do escultor genovês Giuseppe Navone, bem menos famoso que o Canova, mas agraciado mesmo assim com um verbete na Wikipedia, em italiano, em: https://it.wikipedia.org/wiki/Giuseppe_Navone. Ou seja, não é um joão-ninguém. A versão de que a estátua é do Canova seria mais uma dessas lendas urbanas que acabam virando "realidade", 

                                      

No entanto, levar a escultura do palácio para o Largo do Machado foi um enorme desafio. Como fazê-lo sem danificar aquela preciosa imagem de mármore, dotada de braços e dedos delicados? Uma firma cobrou 30.000 para fazer o transporte, preço considerado exagerado. Uma outra pediu 50.000!

Procurou-se por socorro no Cais do Porto. Lá, o Dr. Francisco Gallotti manifestou boa vontade, mas ele não tinha um guindaste adequado para um ambiente pequeno como o jardim do Palácio São Joaquim.

No dia 2 de dezembro, ainda não havia quem fizesse o serviço. Apenas conseguiu-se que a Marmoraria Santo Cristo apressasse o revestimento do pedestal do monumento. Mesmo assim, no dia 30 de novembro, D. Jaime fora ao Catete fazer uma visita ao presidente Café Filho, para convidá-lo à inauguração da peça.

Felizmente encontrou-se a tempo uma solução para o transporte da estátua. Seriam feitas duas torres no Palácio São Joaquim, uma de ferro e outra de madeira, que seriam depois levadas ao Largo do Machado, tão logo se conseguisse descer a imagem de seu pedestal nos jardins do palácio.

Então, a imagem foi transportada para o Largo do Machado, onde os marmoristas da Companhia Santo Cristo estavam trabalhando dia e noite. Em 8 de dezembro, D. Jaime foi ao local acompanhar as obras. A imagem já estava no pedestal, mas os operários caíam de sono – alguns trabalhavam havia quase 30 horas seguidas. Dr. Alberto Carlos Del Castilho pediu que se fizesse de tudo para atrasar a cerimônia por uma hora, pois faltava desarmar ambas as torres de ferro e de madeira, que os auxiliaram a suspender a imagem. Então, o Presidente foi avisado de que a cerimônia seria às 17h.

A hora se aproximava e os operários, ao desarmar a última torre, simplesmente atiravam tudo abaixo para ser recolhido pelos outros. Apenas deu tempo de abrir as placas de bronze com a bandeira pontifícia e a brasileira, pois o presidente Café Filho estava chegando.

No dia seguinte, 9, foi realizada na Catedral uma missa de graças à firma Severo e Villares, para agradecer pelo empenho de seus diretores, engenheiros e operários, que em apenas duas semanas realizaram a proeza de construir e transportar, com meios quase primitivos, o monumento que agora embelezava o Largo do Machado.

A sinceridade de D. Jaime e a beleza da peça merecem este registro.