domingo, 16 de setembro de 2012

A escultura Harmonia e a Bica da Mulata

O artista plástico francês Jean-Jacques Pradier (1790-1852), também conhecido como James Pradier, tem três peças de bronze de sua autoria no espaço público do estado do Rio de Janeiro. Todas, porém, derivam de um mesmo trabalho escultórico, cujo molde pertencia aos catálogos das fundições do Val D’Osne. O exemplar que se encontra hoje no Largo dos Leões, no bairro carioca do Humaitá, segue sendo chamado por seu nome original: “Harmonia”. Porém, as outras duas peças gêmeas, localizadas na Pavuna e no município de Belford Roxo, são identificadas como “Bica da Mulata”, designação popular que a escultura ganhou com o tempo.

A “Harmonia”, que está no Largo dos Leões, foi instalada, a princípio, em uma estação de tratamento da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae). Posteriormente, a peça foi doada à cidade do Rio de Janeiro e, então, transferida para o espaço público.




 Largo dos Leões - Humaitá


Já o exemplar que ficou conhecido como “Bica da Mulata” tem uma longa história de disputa entre os municípios do Rio de Janeiro e de Belford Roxo.


Do pesquisador Guilherme Peres, membro do  Instituto de Pesquisas e Análises Históricas e de Ciências Sociais da Baixada Fluminense (IPAHB), tem-se o seguinte relato: “A estação de trem  recebeu este nome em homenagem a Raimundo Teixeira Belford Roxo, chefe da 1ª Divisão da Inspetoria de Águas. Havia em frente a esta estação um artístico chafariz de ferro jorrando água, que o povo denominou de ‘Bica da Mulata’, cuja figura mitológica de uma mulher branca sobraçando uma cornucópia oferecia aos passantes o líquido precioso, que a oxidação do ferro transformou em ‘mulata’, e era uma cópia da estátua existente na Pavuna.” 

Registros e descrições de uma mesma fonte em duas localidades resistem ao tempo. Há relatos de que a peça foi roubada na década de 1950 e, depois, encontrada no bairro da Pavuna, na cidade do Rio de Janeiro. Diz-se também que foi instalada inicialmente na Rua Tavares Guerra, atual Avenida Nossa Senhora das Graças, quando o bairro ainda pertencia a Nova Iguaçu. Outra informação dá conta de que a bica foi instalada no Largo da Pavuna e “desapareceu” em meio às obras do Metrô, nas expansões de 1984.

Há ainda quem diga que a escultura foi encontrada na década de 1990 em um depósito de obras da prefeitura do Rio de Janeiro, na Avenida Automóvel Clube, durante as obras de construção de um viaduto e de restauração do bairro pelo Sr. Isaías Ribeiro, comerciante local, fundador e presidente da Associação Comercial da Pavuna, que prometeu recolocá-la em seu devido lugar.

Finalmente, no ano de 1995, a peça de Pradier foi instalada no recém-emancipado município de Belford Roxo, através de um termo de cessão de uso, assinado pelo prefeito do Rio, o que pressupõe ser a escultura um bem do patrimônio da cidade do Rio de Janeiro.

 em Belford Roxo


No ano 2000, conheci a inquietação dos moradores da Pavuna através de inúmeras solicitações de que fosse recuperada a “Bica da Mulata” como o marco do início da ocupação do bairro. Não encontrando documentação que comprovasse a procedência, considero que a hipótese mais plausível é de que, no passado, havia uma  única peça, que era constantemente transferida da Pavuna para Belford Roxo, e vice-versa, pelos moradores, com o objetivo de resgatar a identidade dessas duas localidades.

Enfim, em 2002, foi fundida uma réplica da “Harmonia” que está no Largo dos Leões, para ser instalada na Pavuna, o que somente se concretizou no dia 3 de julho de 2012, quando foi inaugurada ali a atual “Bica da Mulata”, passando a ser três as peças de Pradier no estado do Rio de Janeiro.

 Praça Copernico -Pavuna

Atualizando esse post em fevereiro de 2014, deixo a informação que a peça foi furtada no dia 5 de fevereiro de 2015 e realizado o registro policial na 39º DP.



Jean-Jacques Pradier, exímio escultor das formas sensuais e acadêmicas, teve grande reconhecimento artístico em 1986, no Museu de Luxemburgo, com a exposição “Estátuas de Carne”, da qual fez parte sua “Harmonia”, encontrada no Rio de Janeiro, como um dos mais belos exemplares do Haute-Marne, das fundições francesas do Val D’Osne. Peças como essa, de ferro fundido, costumavam ser apresentadas em pranchas aos compradores, que as escolhiam para ser reproduzidas de seus moldes originais, o que permitiu que tais esculturas se espalhassem pelo mundo.











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